Fotografias: um monte de quinquilharias simbólicas, por Fernanda Prado

pc62.jpg“Nossa, dá medo de remexer nas fotos”, alguém soltou. “Eu, hein?! É a parte mais difícil quando se termina um namoro” ou “Eu não quero nem ver por um bom tempo…”. Você já reparou que quando terminamos um romance vamos logo “atacando” as pobres fotografias, que não têm absolutamente nada a ver com isso? O que antes eram recortes preciosos de um momento feliz passam a ser …. nada!! Rasgamos aquele pedaço de papel sem dó e nem piedade ou, por auto-proteção ou medo, “esquecemos” a caixa no fundo do armário. Curiosamente, eu tinha acabado de ler um trecho do livro O Passado (do argentino Alan Pauls e que inspirou Hector Babenco em seu novo filme), que falava exatamente isso. Rímini e Sofia, os dois protagonistas da história, tinham ficado juntos por doze anos e agora se viam diante da difícil tarefa: “O que faremos com a caixa de fotos?”. Sofia insiste em mexer no baú, mas Rímini adia a partilha o máximo que pode. Dividir os móveis foi bem mais fácil, “mas, as fotografias, como a maioria dessas quinquilharias simbólicas que os casais acumulam ao longo do tempo, perdem tudo quando o contexto que lhes dava sentido se dissolve: não servem literalmente para nada, não têm nenhuma posteridade”, diz o livro. Pois bem, se não servem para nada mesmo, se são tão descartáveis assim, prefiro não fotografar mais. Ou melhor, decidi agora: prefiro não amar mais! Assim, não corro o risco de ter que rasgar minhas imagens feitas com tanto amor e dedicação no próximo fim de namoro. Ponto final.

Para ler o outro texto que a Fê escreveu para o Granulado, clique aqui.

A imagem que ilustra esse post foi tirada do sensacional site Square America

5 Comentários

  1. Rs… comentários já feitos pessoalmente! A propósito, ótimo contexto!

    Flower Poer, nos vemos sabadão? Diz que simmm!

  2. Rs… comentários já feitos pessoalmente! A propósito, ótimo contexto!

    Flower Power, nos vemos sabadão? Diz que simmm!

  3. Pois é…as fotografias são mais que rastros . São marcas indeléveis, como cicatrizes que carregamos conosco durante toda a vida e nos fazem sempre lembrar. Por mais que o contexto se desintegre – e ele já dexia de existir quase que simultaneamente ao clique – uma fotografia sincera é capaz de despertar os mais diversos sentimentos, independente da situação que envolve a imagem. Esse, para mim, é o poder da fotografia, despertar a vida. E vida, querida Fernanda, é isso…alegrias, tristezas, encontros, desencontros, claros e escuros.

  4. A CELULITE E O FIM DO AMOR E DAS FOTOS DE VERÃO – Pois é, Vitorino… fotografias são marcas indeléveis, mas às vezes podem ser maculadas – principalmente quando o assunto é … celulite! Sim, você leu bem: CELULITE! O que isso tem a ver com o meu texto anterior e com o seu comentário juro que não sei, mas vou tentar fazer um link, ok? Hoje li na Folhinha (pois é, às vezes leio até cadernos infantis) um artigo com o título: “O fim das fotos de verão…” Claro que chamou a minha atenção e pensei: “Tá vendo???? Até as fotos de verão estão no fim!”. Bem, o texto girava em torno de que “antigamente” (não se esqueça que o público da Folhinha nasceu na década de 90) as fotos de verão traziam “todo mundo de biquini amontoado na praia e com o cabelo emplastrado de água do mar”. Mas, agora, graças ao Photoshop, as celulites das meninas podem ser apagadas antes de mandar as fotos para os amigos!!! A colunista da Folha escreve: “Fotos de férias parecerão com as de celebridades em revistas”!. Olha essa loucura!!! O pior não é apagar ou não apagar as celulites! Mas, sim saber que crianças de 10 anos que lêem Folhinha se preocupam de fato com isso!! Concluindo: é o fim do amor (que antes tolerava a celulite); é o fim da celulite (que antes não interferia no amor) e é o fim, definitivamente, das benditas fotos de verão. Sacou?

  5. Vamos considerar que todo fim pode ser o começo de algo novo, e que o mundo talvez nunca esteve tão pluralista, ou pelo menos expondo de forma tão intensa suas inúmeras verdades, acéfalas ou não. Essa da celulite, ou “O Fim das Fotos de Verão”, é apenas mais uma versão desse nosso mundo louco e que, como já disse, vem sendo incansavelmente fotografado, embora muitos tenham dito que a fotografia está morta ou moribunda. As manipulações – ou máculas, como preferir – também devem ser entendidas como rastros de idéias (pensei em ideais, mas essa palavra está fora de moda!), desejos e toda sorte de intenções daquele a que se presta a fotografia em questão. Para mim, o verão vai vir sempre depois da primavera, juntamente com suas celebrações e fotografias, com ou sem celulite. As fotografias, aliás, que muitas vezes dizem muito mais respeito ao que se pretende ser, em detrimento ao do que de fato é. Mas a história verdadeira, aquela que vem inclusive carregada de sentimentos quando nos reencontramos com um antigo retrato, independente da foto ter sido “maculada”, essa é difícil apagar. Capicci?


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