Nada se cria tudo se apropria

Uma imagem da série “Untitled Cowboy”, do artista Richard Prince, passou a liderar o ranking das fotografias negociadas por valor mais alto na história. O comprador, que pediu anonimato, pagou US$ 3,4 milhões por ela em leilão realizado em novembro nos Estados Unidos. Mais do que o natural espanto com o valor, as fotografias de Prince provocam uma reflexão sobre a questão da autenticidade nas obras de arte. Isso porque ele não cria as imagens que assina. Ele apropria-se delas. A série “Untitled Cowboy” é formada por reproduções em tamanho grande – aproximadamente 2,5 metros de altura – de imagens de antigos anúncios publicitários do Marlboro. Os fotógrafos dos trabalhos originais podem até espernear, mas dificilmente verão um centavo a mais do que já receberam da Philip Morris para ilustrar as campanhas do cigarro. A prática de apropriação na arte é antiga e bem estabelecida, apesar de sempre causar controvérsia. Já nos idos de 1919 o francês Marcel Duchamp tomou para si a Mona Lisa de Leonardo da Vinci e lhe acrescentou um bigode. Nos anos 1960, Andy Warhol fez da cópia a alma da Pop Art. O Brasil também tem seus prodígios da apropriação. Rosangela Rennó, por exemplo, costuma usar imagens alheias em suas obras, com resultados bastante interessantes. Seria possível ir até o fim da coluna citando artistas-apropriadores, mas prefiro contar o caso do artista conceitual americano Michael Mandiberg, que usou de ironia para criticar o control-c-control-v de seus colegas. O alvo foi o trabalho da norte-americana Sherrie Levine, que em 1979 refotografou as imagens do lendário Walker Evans (1903-1975). Ela batizou o trabalho de “After Walker Evans” (“Após Walker Evans”) e, como manda a praxe do mercado, produziu um número reduzido de cópias. Em pouco tempo, “suas” imagens eram mais procuradas por colecionadores do que as originais. Mandiberg entrou na história em 2001, quando refotografou as (re)fotografias de Levine. O trabalho ganhou o nome de “After Sherrie Levine”. Diferentemente da artista, que colocou seu trabalho em alta rotação no circuito das galerias e faturou alto com isso, Mandiberg colocou as obras na internet. Os arquivos são em alta resolução e é possível até baixar um certificado de autenticidade do trabalho. E ninguém precisa movimentar nada próximo de US$ 3,4 milhões para ter um Mandiberg original na parede. O download é gratuito. O endereço é www.aftersherrielevine.com.

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1 Comentário

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